Em união com todos os Santos Anjos

"Sanctus, Sanctus, Sanctus. Dóminus, Deus Sábaoth Pleni sunt caeli et terra Glória tua. Hosánna in excélsis. Benedíctus, qui venit In nómine Dómini, Hosánna in excélsis.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A presença dos Anjos no decorrer da vida de Santa Faustina e a divina Misericórdia, bem como outros atributos de Deus, e sua rejeição na prova dos Anjos

I. A presença dos Anjos no decorrer da vida de Santa Faustina

Santa Faustina recebeu muitas graças especiais de Jesus. Ele, seu divino Redentor e Esposo, e ela eram muito próximos um do outro. Apesar disso, ela não se fechou à presença e à ajuda que recebeu dos Santos Anjos, em particular do seu Anjo da Guarda. Muitas vezes ela se refere a eles em seu Diário. Neste primeiro capítulo queremos apenas demonstrar que os Anjos, bons e maus estavam sempre presentes em sua vida, fazendo parte dela.
Para este trabalho queremos limitar-nos exclusivamente àquilo que sabemos através de sua autobiografia, o Diário – A Misericórdia divina na minha alma, anotações sobre a sua vida interior a partir da entrada no convento.

1. O Anjo da Guarda

Santa Faustina menciona sua chamada à vida religiosa já aos sete anos de idade. Com a ajuda de Jesus consegue seguir sua vocação ao completar dezoito anos (cf. D 7-15). Já tinha amadurecido a consciência de depender totalmente de Deus em sua vida. Por isso, não considera mais nada um “acaso” e está consciente de que deve ver o dedo de Deus atrás das pequenas coisas. Iluminada por ver a Providência divina em tudo, reconhece-a também no fato de ter entrado no convento “na véspera da festa de Nossa Senhora dos Anjos”:

Finalmente chegou o momento em que se abriu para mim o portão do convento - foi no primeiro dia de agosto, à tarde, na véspera de Nossa Senhora dos Anjos. Sentia-me imensamente feliz, parecia que havia entrado
na vida do paraíso. O meu coração só era capaz de uma continua oração de ação de graças. (D 17) Pouco tempo depois disso, anota a Irmã, comentando a respeito de uma visão do Anjo da Guarda, tive problemas de saúde. A prezada Madre Superiora enviou-me, juntamente com duas outras Irmãs, a Skolimov, um pouco fora de Varsóvia, para passar as férias. Nesse tempo perguntei a 119

Nosso Senhor por quem mais deveria rezar? Jesus respondeu-me que na noite seguinte me daria a conhecer por quem deveria rezar. Vi o Anjo da Guarda que me mandou acompanhá-lo... (D 20) Santa Faustina rezou a Deus e Ele lhe respondeu por meio do Anjo da Guarda. Fora então enviado por Deus. Com isso ela aprendeu que tratar com os Anjos da Guarda não ofende a Deus, pois o Anjo, sendo um “Servo do Senhor”, é primeiramente fiel a Ele. Entre os Santos Anjos e Deus não há competição.
O Anjo ajudou a Santa não apenas nos assuntos religiosos, mas também na vida cotidiana. Por exemplo: nas viagens podia verificar várias vezes a visível presença e proteção do seu Anjo da Guarda:

Vi o Anjo da Guarda, que me acompanhou na viagem até Varsóvia e só depois de entrarmos no portão é que desapareceu. […] Em Varsóvia, embarcamos no trem para Cracóvia e novamente vi meu Anjo da Guarda a meu lado, absorvido em oração e contemplando a Deus e o meu pensamento o acompanhava e quando passamos pelo portão do Convento, desapareceu. (D 490)

Parece que a promessa do Senhor nos Salmos tornou-se vida para ela:

Cairão mil ao teu lado e dez mil à tua direita; mas nada te poderá atingir. Basta que olhes com teus olhos, verás o castigo dos ímpios. Pois teu refúgio é o Senhor; fizeste do Altíssimo tua morada. Não poderá te fazer mal a desgraça, nenhuma praga cairá sobre tua tenda. Pois ele dará ordem a seus Anjos para te guardarem em todos os teus passos. Em suas mãos te levarão para que teu pé não tropece em nenhuma pedra. Caminharás sobre a serpente e a víbora, pisarás sobre leões e dragões. (Sl 91(90), 7-14)
 
II. Os Anjos e a Divina Misericórdia

Dirijamos agora a nossa atenção à rica mensagem contida neste Diário, examinando-a pelo prisma da presença e ação dos Anjos aplicando-a à nossa vida.

1. A Misericórdia como atributo de Deus

Uma das características específicas da mensagem de Santa Faustina é o forte destaque que recai sobre a Misericórdia de Deus.

a) Tudo o que existe foi criado pela Misericórdia divina Deus, “rico em Misericórdia”, criou em seu Filho “todas as coisas, no céu e na terra, os seres visíveis e os invisíveis, tronos, dominações, principados, potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1,16).
Santa Faustina afirma várias vezes que os Anjos foram criados pela Misericórdia divina, por conseguinte, a criação toda é atribuída não só à Onipotência divina, mas também à Misericórdia de Deus: Tudo o que existe saiu das entranhas da Minha Misericórdia. (D 699)
Todos os Anjos e homens saíram das entranhas da Vossa Misericórdia. A Misericórdia é a flor do amor. Deus é amor e a Misericórdia, a Sua obra; no amor se concebe, na Misericórdia se manifesta. Tudo que vejo me fala de Sua Misericórdia, até a própria justiça de Deus fala-me da Sua impenetrável Misericórdia, porque a justiça nasce do amor. (D 651) E ainda, numa reflexão explícita sobre a “Infinita bondade de Deus na criação dos Anjos” quando afirma:

Pela Vossa insondável Misericórdia chamais à existência as criaturas... (D 1741)
Se chamo criaturas à existência, é pelo abismo da Minha Misericórdia. (D 85)
 
2. Outros atributos de Deus Santa Faustina observa nos Anjos uma mesma atitude diante de Deus misericordioso e de Deus visto segundo qualquer outro aspecto. Pois não 127 é possível falar de um lado da Face de Deus e ignorar todos os outros atributos.

a) Procura conhecer a Deus Foi o próprio Jesus quem lhe deu a necessária instrução:

Em certo momento estava refletindo sobre a Santíssima Trindade, sobre a essência divina. Queria a todo custo aprofundar-me e conhecer quem é esse Deus... Num momento o meu espírito foi arrebatado como que para o outro mundo; vi uma claridade, que não podia compreender. E dessa claridade saiam palavras em forma de trovão e circundavam o céu e a terra. Não compreendo nada disso, fiquei muito triste. Nesse momento, do mar de claridade inacessível saiu o nosso amado Salvador em beleza inconcebível, com as chagas brilhantes. E daquela claridade ouvia-se esta voz:

‘Como Deus é na Sua essência, ninguém compreenderá, nem a inteligência dos Anjos, nem a humana. Jesus me disse: Procura conhecer a
Deus, refletindo sobre Seus atributos. Após um momento, Nosso Senhor fez o sinal da cruz com a mão e desapareceu. (D 30)Comunica-nos, num texto já referido, a idéia da “participação” dos Anjos nos atributos de Deus:

Vós os tornastes capazes de eterno amor; e, embora os tenhais cumulado, Senhor, tão generosamente com o esplendor da beleza e do amor, em nada diminuiu a Vossa plenitude, ó Deus, nem tampouco aquela beleza e amor Vos completaram, porque Vós sois tudo em Vós mesmo.

Ela conclui assim a reflexão:

E se lhes destes participar da Vossa felicidade e lhes permitis existir e amar-Vos, é unicamente em virtude do abismo da Vossa Misericórdia É em virtude da Vossa inconcebível bondade, que Vos bendizem sem fim, humilhando-se aos pés da Vossa majestade e cantando seus hinos eternos: - “Santo, Santo, Santo”... (D 1741)

Como todos os atributos divinos são apenas expressões da Sua essência, todos eles, por conseguinte, exigem sempre das criaturas a resposta como a Deus mesmo. O tempo do advento era para a Irmã um tempo de graças especiais para estas reflexões. Nesse tempo a liturgia olha para o Deus Uno, conhecido no Antigo Testamento, e conduz o homem a uma revelação maior.

Durante o Advento despertou em meu coração uma grande nostalgia de Deus. O meu espírito ansiava por Deus com toda a força do meu ser. Nesse 128 tempo o Senhor concedeu-me muitas luzes para conhecer seus atributos. (D 180)

Santa Faustina comunica-nos três destas luzes:

O primeiro atributo que o Senhor me deu a conhecer foi a Sua santidade. Essa santidade é tão elevada que tremem diante d’Ele todas as potestades e virtudes [quer dizer, poderes celestiais]. Os espíritos puros cobrem o seu rosto e mergulham em incessante adoração e têm apenas uma palavra para expressar a maior honra, isto é – “Santo”...

O Senhor concedeu-me também o conhecimento do segundo atributo – o da justiça. E esta é tão imensa e penetrante que atinge o fundo do ser e tudo diante d’Ele é manifesto em toda a nudez da verdade e nada Lhe pode resistir.

O terceiro atributo é o Amor e a Misericórdia. E compreendi que o Amor e a Misericórdia é o maior atributo... (D 180; cf. 637)Durante a adoração eu estava recitando o “Deus Santo”, por diversas vezes; então envolveu-me mais vivamente a presença de Deus e fui arrebatada, em espírito, diante da majestade de Deus. E vi como dão glória a Deus os Anjos e os Santos do Senhor. Tão grande é essa glória de Deus que nem quero tentar descrevê-la, porque não conseguiria... (D 1604).


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Fonte: Sapientia Crucis - Titus Kieninger ORC