Em união com todos os Santos Anjos

"Sanctus, Sanctus, Sanctus. Dóminus, Deus Sábaoth Pleni sunt caeli et terra Glória tua. Hosánna in excélsis. Benedíctus, qui venit In nómine Dómini, Hosánna in excélsis.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

DIRETÓRIO SOBRE PIEDADE POPULAR E LITURGIA


[Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 17 de dezembro de 2001]


212. Enfim, é preciso insistir que a meta última da veneração dos Santos é a glória de Deus e a santificação do homem mediante uma vida plenamente conforme à vontade divina e à imitação das virtudes daqueles que foram eminentes discípulos do Senhor.
Por isso, na catequese e em outros momentos da transmissão da doutrina se deverá ensinar aos fiéis que: a nossa relação com os Santos deve ser concebida à luz da fé, não deve "esvaziar, mas, pelo contrário, manter e até desenvolver o culto de adoração devido unicamente a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo"; "o verdadeiro culto aos Santos não consiste na multiplicação dos atos exteriores, mas na intensidade do amor ativo", que se traduz em empenho de vida crista [Cf. LG, n. 51].

Os Santos Anjos
213. Através da clara e sóbria linguagem da catequese, a Igreja ensina que "a existência de seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de Anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição" [CICat 328].
Segundo a Escritura, os Anjos são mensageiros de Deus, "heróis fortes que executam suas ordens, obedecendo sua palavra" (Sl 103,20), colocados a serviço do seu desígnio salvífico, "enviados a serviço daqueles que deverão herdar a salvação" (Hb 1,14).

214. Os fiéis não ignoram os numerosos episódios da Antiga e da Nova Aliança, nos quais os santos Anjos intervêm. Sabem que os Anjos guardam as portas do paraíso terrestre (cf. Gn 3,24), salvam Agar e seu filho Ismael (cf. Gn 21,17), seguram a mão de Abraão que está pronta para sacrificar o filho Isaac (cf. Gn 22,11), anunciam nascimentos prodigiosos (cf. Jz 13,3-7), guardam os passos do justo (cf. Sl 91,11), louvam incessantemente o Senhor (cf. Is 6,I-4) e apresentam a Deus as orações dos Santos (cf. Ap 8,3-4). Lembram-se também da intervenção de um Anjo em favor do profeta Elias, fugitivo e extenuado (cf. 1Rs 19,4-8), de Azarias e dos seus companheiros jogados na fornalha (cf. Dn 3,49-50), de Daniel preso na cova dos leões (cf. Dn 6,23); para eles é familiar a história de Tobias, na qual Rafael, "um dos sete anjos que assistem diante da claridade do Senhor e entram em sua presença" (cf. Tb 12,15), realiza vários serviços em favor de Tobit, do seu filho Tobias e de Sara, a mulher deste.
Os fiéis também sabem que não são poucos os episódios da vida de Jesus nos quais os Anjos exercem uma função especial: o Anjo Gabriel anuncia a Maria que conceberá e dará à luz o Filho do Altíssimo (cf. Lc 1,26-38) e, de modo parecido, um Anjo revela a José a origem sobrenatural da maternidade da Virgem (cf. Mt 1,18-25); os Anjos levam aos pastores de Belém a alegre notícia do nascimento do Salvador (cf. Lc 2,8-14); o "Anjo do Senhor" protege a vida do Menino Jesus ameaçada por Herodes (cf. Mt 2,13-20); os Anjos servem a Jesus no deserto (cf. Mt 4,11) e o confortam na agonia (cf. Lc 22,43), anunciam às mulheres que se dirigiram ao túmulo de Cristo que ele "ressuscitou" (cf. Mc 16,1-8) e intervêm também na ascensão, para revelar aos discípulos o sentido dela e para anunciar que "Jesus [...] virá assim, do mesmo modo como o vistes partir para o céu" (At 1,11).
Os fiéis reconhecem a importância da advertência de Jesus para não desprezar um só dos pequeninos que crêem nele, "os seus anjos, no céu, contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10), e da consoladora palavra segundo a qual "haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se converte" (Lc 15,10). Enfim, eles sabem que "quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso" (Mt 25,31) para julgar os vivos e os mortos e dar cumprimento à história.

215. A Igreja, que em seus primórdios foi guardada e defendida pelo ministério dos Anjos (cf. At 5,17-20; 12,6-11) e que constantemente experimenta a sua "ajuda misteriosa e poderosa" [CICat., 334], venera esses espíritos celestes e, confiante, solicita a intercessão dos mesmos.
Durante o Ano litúrgico, a Igreja comemora a participação dos Anjos nos eventos da salvação [Assim, por exemplo, na própria solenidade máxima, a Páscoa, e nas solenidades da Anunciação (25 de março), do Natal (25 de dezembro), da Ascensão, da Imaculada Conceição (8 de dezembro), da Assunção (15 de agosto) e de Todos os Santos (12 de novembro)], e celebra a memória deles em alguns dias particulares: em 29 de setembro a dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael; em 2 de outubro a dos Anjos da Guarda; a eles dedica uma Missa votiva, cujo prefácio proclama que "a glória de Deus resplandece nos Anjos" [MISSAL ROMANO, Prefácio dos Anjos]; na celebração dos divinos mistérios se associa ao canto dos Anjos para proclamar a glória do Deus três vezes santo (cf. Is 6,3) [Cf. MISSAL ROMANO,Oração Eucarística, Santo] e invoca a assistência deles para que a oferta eucarística "seja levada ao altar do céu, diante da [...] majestade divina" [MISSAL ROMANO, Oração Eucarística I, Nós vos suplicamos]; na presença deles celebra o oficio de louvor (cf. Sl 137,I) [S. BENEDITO, Regula, 19,5: CSEL 75, Vindobonae, 1960, p. 75]; confia ao ministério dos Anjos as orações dos fiéis (cf. Ap 5,8; 8,3), a dor dos penitentes [Cf. RITUAL ROMANO, Ritual da Penitência, São Paulo, Ave Maria, 1999, 54], a defesa dos inocentes contra os assaltos do Maligno [Cf. LITURGIA DAS HORAS, 2 de outubro, memória dos Santos Anjos da Guarda, Vésperas, Hino "Aos anjos cantemos, que guardem a todos"]; implora a Deus para que envie, no final do dia, os seus Anjos a fim de guardar na paz os que oram [Cf. LITURGIA DAS HORAS, Completas depois das II Vésperas dos Domingos e Solenidades, Oração "Visitai, Senhor, esta casa"]; ora para que os espíritos celestes venham socorrer os agonizantes [Cf. RITUAL ROMANO, Ritual da unção dos enfermos e sua assistência pastoral, cit., 147] e, no rito das exéquias, suplica para que os Anjos acompanhem até o paraíso a alma do defunto [Cf. RITUAL ROMANO, Ritual de Exéquias, São Paulo, Paulinas, 1971, 50] e guardem o seu sepulcro.

216. Ao longo dos séculos, os fiéis traduziram em expressões de piedade as convicções da fé a respeito do ministério dos Anjos: os assumiram como patronos de cidades e protetores de corporações; em honra deles edificaram famosos santuários, como Mont Saint-Michel na Normandia, san Michele della Chiusa no Piemonte e san Michele al Gargano na Puglia, e estabeleceram dias festivos; compuseram hinos e práticas de piedade.
De modo particular, a piedade popular desenvolveu a devoção ao Anjo da Guarda. São Basílio Magno (1379) já ensinava que "todo fiel tem ao seu lado um Anjo como protetor e pastor, a fim de conduzi-lo à vida" [S. BASÍLIO DE CESARÉIA, Adversus Eunomium, III, 1: PG 29, 656]. Essa antiga doutrina foi pouco a pouco se consolidando em seus fundamentos bíblicos e patrísticos, e deu origem a várias expressões de piedade, até encontrar em são Bernardo de Claraval († 1153) um grande mestre e um apóstolo insigne da devoção aos Anjos da Guarda. Para ele, esses Anjos são demonstração de "que o céu não descuida de nada que possa ser de ajuda" e, por isso, coloca "ao nosso lado esses espíritos celestes a fim de que nos protejam, nos instruam e nos guiem" [S. BERNARDO DE CLARAVAL,Sermo XII in Psalmum "Qui habitat", 3, In: Sancti Bernardi Opera. Romae, Editiones Cistercienses, IV, 1966, p. 459].
A devoção aos Anjos da Guarda dá também lugar a um estilo de vida caracterizado por:
• devota gratidão a Deus, que colocou a serviço dos homens espíritos de tão grande santidade e dignidade;
• atitude de compostura e piedade, provocada pela consciência de estar constantemente na presença dos santos Anjos;
• serena confiança no enfrentamento de situações até difíceis, porque o Senhor guia e assiste o fiel no caminho da justiça até mesmo através do ministério dos Anjos.
Entre as orações ao Anjo da Guarda é especialmente difundida o Anjo de Deus [Cf. EI,Normae e concessiones, 18, p. 65], que em muitas famílias faz parte das orações da manhã e da noite e que, em muitos lugares, acompanha também a recitação do Anjo do Senhor.

217. A piedade popular para com os santos Anjos, legítima e salutar, pode entretanto dar lugar a desvios, como, por exemplo:
• se, como às vezes acontece, surge no espírito dos fiéis uma concepção errônea segundo a qual eles consideram o mundo e a vida submetidos a tensões demiúrgicas, à luta incessante entre espíritos bons e espíritos maus, entre os Anjos e os demônios, na qual o homem é envolvido por poderes a ele superiores, diante dos quais não pode fazer nada; essa concepção, ao mesmo tempo que desresponsabiliza o fiel, não corresponde à genuína visão evangélica da luta contra o Maligno, que requer do discípulo de Cristo empenho moral, opção pelo Evangelho, humildade e oração;
• se as vicissitudes cotidianas da vida são lidas de modo esquemático e simplista, quase infantil, atribuindo ao Maligno até as mínimas contradições, e, ao contrário, ao Anjo da Guarda sucessos e realizações, que pouco ou nada têm a ver com o progresso do homem na sua caminhada rumo à consecução da maturidade de Cristo. Deve-se reprovar também o uso de dar aos Anjos nomes particulares, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que estão contidos na Escritura.

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