Em união com todos os Santos Anjos

"Sanctus, Sanctus, Sanctus. Dóminus, Deus Sábaoth Pleni sunt caeli et terra Glória tua. Hosánna in excélsis. Benedíctus, qui venit In nómine Dómini, Hosánna in excélsis.

domingo, 20 de abril de 2014

O AUXÍLIO DOS SANTOS ANJOS NO EXAME DE CONSCIÊNCIA II



Como é que os santos Anjos cumprem essa sua missão? Segundo o Pseudo-Dionísio, a missão de iluminar os homens pertence aos santos Anjos, especialmente aos da segunda hierarquia: as Dominações, as Potestades (Forças) e os Principados (Poderes). Eles transmitem às almas a luz que receberam, eles as purificam, iluminam-nas e as aperfeiçoam. É o que nos ensina a nossa Mãe Gabriele: “Sobre a criação inteira vemos distribuídos os três coros seguintes: as Dominações, que no amor transmitem os dons de DEUS, as Potestades (forças), que levam à criação as leis de DEUS e da natureza inteira e os Principados, os administradores da criação, sejam continentes ou países, povos ou comunidades” (O nosso Anjo, p. 3). Os santos Anjos tiram os obstáculos que impedem a alma de ver (cf. D.Sp. I,583). Pois é próprio da natureza dos espíritos celestes de vir em auxílio dos homens seus irmãos, suas imagens (D.Sp. I,588). Assim, podemos concluir que os santos Anjos exercem sua ação principalmente a nível do nosso pensamento. O nosso intelecto seria, por assim dizer, a “área de trabalho” dos santos Anjos. “Por intermédio do nosso Anjo da Guarda aprendemos não somente a ouvir o que DEUS quer de nós, mas também a ver onde deve concretizar-se o nosso auxílio, a nossa tarefa no Reino de DEUS e na salvação das almas” (O nosso Anjo, p. 9). Isto acontece na história de Agar, escrava de Sara, esposa do nosso Pai na fé: Abraão. “Sarai, mulher de Abrão, não lhe tinha dado filho; mas, possuindo uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a Abrão: ‘Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava, para ver se, ao menos por ela, eu posso ter filhos’. Abrão aceitou a proposta de Sarai. Sarai tomou, pois, sua escrava, Agar, a egípcia, passado dez anos que Abrão habitava a terra de Canaã, e deu-a por mulher a Abrão, seu marido. Este aproximou-se de Agar e ela concebeu. Agar, vendo que tinha concebido, começou a desprezar a sua senhora. Então Sarai disse a Abrão: ‘Caia sobre ti o ultraje que me é feito! Dei-te minha escrava, e ela, desde que concebeu, olha-me com desprezo. O Senhor seja juiz entre mim e ti!’ Abrão respondeu-lhe: ‘Tua escrava está em teu poder, faze dela o que quiseres’. E Sarai maltratou-a de tal forma que ela teve de fugir. O Anjo do Senhor, encontrando-a no deserto junto de uma fonte que está no caminho de Sur, disse-lhe: ‘Agar, escrava de Sarai, donde vens? E para onde vais?’ ‘Eu fujo de Sarai, minha senhora’, respondeu ela. ‘Volta para a tua senhora, tornou o Anjo do Senhor, e humilha-te diante dela’” (Gn 16,1-9). Para o nosso tema é importante a questão que o santo Anjo apresenta a Agar: “Donde vens? E para onde vais?”. Podemos dizer que esta é a grande pergunta que o santo Anjo nos faz no exame de consciência: de onde vens e para onde vais? Como vimos, o exame de consciência nos permite conhecermo-nos e tomar consciência de nossas faltas, aceitando a nossa responsabilidade. E nós, como Agar, devemos ter a coragem da sinceridade: diante de nós mesmos, diante de Deus, diante do nosso santo Anjo! Devemos, corajosamente, confessar-nos pecadores, arrependermo-nos do nosso caminho errado e voltar atrás, numa verdadeira contrição. “Uma vez que nos tivermos habituado a falar com o nosso bom Anjo da Guarda sobre o nosso trabalho diário, sobre os nossos planos e preocupações, ele nos conduzirá sempre mais a uma fidelidade sincera e a um ardente amor a DEUS (O meu Anjo, p. 9). O exame de consciência implica um retorno sobre si, uma evocação do passado – “Donde vens?” –, uma atenção à realidade interiormente experimentada – “Fujo!” –, uma reflexão sobre si, um olhar sobre o futuro – “Para onde vais?” – (cf. D.Sp. IV,1832). Santo Hilário chama ao seu santo Anjo da Guarda a “testemunha” de sua vida1 (D.Sp. I,589). Como no caso de Agar, os santos Anjos nos lembram a insignificância e caducidade da vida, recordam-nos as graças que nós recebemos e a recompensa que coroará os nossos esforços. Cegos, não vemos o que está diante de nós, ignoramos o que nos convém. Os santos Anjos veem o que é bom e útil à nossa alma. Estes pedagogos clarividentes e informados, nos sustentam, nos instruem, nos conduzem pela mão (D.Sp. I,591). Mesmo que, por vezes, este caminho seja o mais duro, como aconteceu com Agar: “Volta para a tua senhora, tornou o Anjo do Senhor, e humilha-te diante dela”. Os santos Anjos são guias espirituais, eles ajudam nossas almas a converter-se. Eles querem fazer-nos santos, iniciam nossas almas nos mistérios de DEUS, iluminam-nas com a luz eterna, ensinam-nos a ciência das coisas divinas3 (D.Sp. I,592). São raros, é verdade, aqueles que são instruídos e guiados diretamente pelos santos Anjos, mas todos podem e devem contemplar, com os olhos da fé, estes maravilhosos modelos, para se inspirar nos exemplos de virtude que eles nos dão (ib., 593). Muitas vezes podemos ver a ação de DEUS, através dos santos Anjos, nos acontecimentos da vida como no caso de Balaão, que agora vamos meditar. Os moabitas, inimigos de Israel, receando um seu ataque recorrem ao profeta Balaão para amaldiçoar o Povo eleito e assim saírem vitoriosos contra Israel. Balaão recorre ao Senhor expondo- Lhe o pedido dos moabitas. DEUS proíbe Balaão de acompanhar os moabitas e amaldiçoar Israel, mas eles insistem e o profeta acaba recebendo de DEUS a permissão de os acompanhar, na condição de só fazer aquilo que Ele lhe disser. “Balaão levantou-se de manhã, selou sua jumenta, e partiu com os chefes de Moab. O Senhor irritou-se com sua partida, e o Anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho como obstáculo. Balaão cavalgava em sua jumenta, acompanhado de seus dois servos. A jumenta, vendo o Anjo do Senhor postado no caminho, com uma espada desembainhada na mão, desviou-se e seguiu pelo campo; o adivinho a fustigava para fazê-la voltar ao caminho. Então o Anjo do Senhor pôs-se num caminho estreito que passava por entre as vinhas, com um muro de cada lado. Vendo-o, a jumenta coseu-se com o muro, ferindo contra ele o pé de Balaão, que a fustigou de novo. O Anjo do Senhor deteve-se de novo mais adiante em uma passagem estreita, onde não havia espaço para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. A jumenta, ao vê-lo, deitou-se debaixo de Balaão, o qual, encolerizado, a fustigava mais fortemente com seu bastão. Então o Senhor abriu a boca da jumenta, que disse a Balaão: ‘Que te fiz eu? Por que me bateste já três vezes?’ ‘Porque zombaste de mim, respondeu ele. Ah, se eu tivesse uma espada na mão! Ter-te-ia já matado!’ A jumenta replicou: ‘Acaso não sou eu a tua jumenta, a qual montaste até o dia de hoje? Tenho eu porventura o costume de proceder assim contigo?’ ‘Não’, respondeu ele. Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o Anjo do Senhor que estava no caminho com a espada desembainhada na mão. Inclinou-se e prostrou-se com a face por terra. ‘Por que, disse-lhe o Anjo do Senhor, feriste três vezes a tua jumenta? Eu vim opor-me a ti, porque segues um caminho que te leva ao precipício. Vendo-me, a tua jumenta desviou-se por três vezes diante de mim. Se ela não o tivesse feito, ter-te-ia já matado, e ela ficaria viva’. Balaão disse ao Anjo do Senhor: ‘Pequei. Eu não sabia que estavas postado no caminho para deter-me. Se minha viagem te desagrada, voltarei’. ‘Segue esses homens, respondeu-lhe o Anjo do Senhor, mas cuida de só proferir as palavras que eu te disser’. E Balaão partiu com os chefes de Balac” (cf. Nm 22,1-35). Podemos chamar a este acontecimento da Sagrada Escritura o episódio do santo Anjo que impede o caminho. É difícil ao santo Anjo falar com o profeta, porque ele está interiormente fechado, por isso se dirige para a jumenta. Ao fim de três vezes de ser batida a jumenta começa a falar e o profeta vê o santo Anjo. Assim acontece muitas vezes conosco. Temos ideias fixas na cabeça e precisamos que alguém nos pare. A nossa inteligência obcecada não reconhece a luz do santo Anjo para pararmos no nosso caminho evitando o mal. Fechamo-nos de tal maneira à ação do santo Anjo em nosso pensamento que ele fica impossibilitado de nos ajudar pelo caminho normal. Assim precisamos de uma jumenta, que pode ser o nosso corpo ou qualquer acontecimento da vida que nos obriga a parar, refletir, a fazer um exame de consciência forçado. DEUS usa esta linguagem quando estamos bem longe de Seus caminhos, ou pelo menos, quando estamos bem desviados deles. E muitas vezes esta é a única linguagem que entendemos. Os santos Anjos agem, pois, como verdadeiros pais espirituais, pois nos indicam o fim sobrenatural que devemos alcançar e as virtudes a praticar. Eles nos previnem de certos defeitos, repreendem nossas imperfeições, por vezes duramente; e, se são severos, são também benevolentes, eles nos encorajam, consolam, estimulam, formam e instruem (D.Sp. I,592). Parando-nos no caminho o santo Anjo quer-nos fazer refletir e pensar de onde partimos, quais as nossas intenções, ele quer sobretudo que não nos fixemos na própria ideia. Isto é o que verdadeiramente fecha a porta à ação do santo Anjo, e com certeza abre a porta à ação do mau anjo! Assim como JESUS se serviu da natureza e dos acontecimentos do dia-a-dia para explicar a vida espiritual, assim o santo Anjo pode servir-se desses meios para nos ensinar, para nos fazer rever as nossas ações. Os santos Anjos esperam de nós o nosso arrependimento, e até se alegram com ele (cf. Lc 15,10): “Pequei. Eu não sabia que estavas postado no caminho para deter-me”. Deste modo, mediadores entre os homens e DEUS, os santos Anjos não cessam de oferecer a DEUS os nossos bons pensamentos, nossos arrependimentos e nossas orações, para nos trazer depois a recompensa de DEUS4. Eles recolhem do nosso coração os nossos bons pensamentos, nossos bons desejos e nossas boas ações e os oferecem a DEUS. Eles se alegram com a nossa conversão, assistem- nos na nossa oração, purificam nosso espírito, estimulam à virtude, elevam nossos pensamentos para DEUS (D.Sp. I,597-598). Se lançarmos “um olhar retrospectivo para o tempo da Antiga Aliança e para o tempo de CRISTO na terra” reconheceremos “quão sério e importante foi ali o papel do Anjo. (...) O próprio Senhor refere-Se frequentemente aos Anjos nos Seus discursos e parábolas e no fim dos tempos Ele virá com os Seus Anjos e eles tomarão parte no cargo de separar os bons dos maus e no cargo de juízes (Mt 13,39-42; Lc 12,8-9). Com isto Ele quer que também nós insiramos os Anjos em nossa vida e em nossas tarefas” (O nosso Anjo, p. 7). Examinar nossa consciência é, verdadeiramente, uma coisa boa e necessária para nós. E como os santos Anjos prestam a sua cooperação a tudo quanto diz respeito ao nosso bem (Cat. Ig. Cat., 4 Cf. Tb 12,12; Ap 5,8; 8,3-4.350), podemos realmente crer numa verdadeira ajuda dos santos Anjos em nosso exame de consciência. Como diz a nossa Mãe Gabriele: “Na voz da consciência o homem prudente pode ouvir a voz do Anjo de DEUS. Quem deixa adormecer a sua consciência, faz silenciar o seu Anjo” (Lemas para o dia-a-dia, 88).  

Fonte:“O AUXÍLIO DOS SANTOS ANJOS NO EXAME DE CONSCIÊNCIA” Pe. Gonçalo Rosa Machado, ORC